Pois foi numa casa assim, na Av. João de Barros, Recife, que passei parte do finalzão de semana santa.
Nada de retiro espiritual planejado. Acabou sendo um pouco isto e também uma entrada num mundo em que a gente evita pensar demais. O mundo da velhice e da vizinhança da morte. Da solidão. E da serenidade, no caso.
Lá é que vive minha Tia Maria Torres, irmã de meu pai. Filha de Henrique Morais e Zabé Torres.
Tia Maria, bem novinha, ficou noiva do farrista e encrenqueiro que era meu Tio Inacio Paca, irmão de minha mãe. Meu tio vaqueiro, herói de minha infância, unico da familia que tinha os paramentos completos de vaqueiro. Usava-os e acredito que foi um bom vaqueiro. Na foto aqui, estamos sentados na varanda da ultima casa onde viveu e onde conversávamos até cansar. Um dos lugares onde vivi momentos de calma e intensa felicidade. Junto com ele.
Pois minha Tia Maria de uma hora pra outra ( mas não tanto), resolveu mudar de vida. Através de contatos feitos pelo Padre Sitonio, pároco da cidade, foi prá Timbauba, Pernambuco para um convento de franciscanas de origem alemã. Lá estudou, virou Irmã do Rosário,professora , diretora do Colégio Santa Maria e depois do Stella Maris em Triunfo , também em Pernambuco. Quando aos 10 anos e meio fui estudar no Santa Maria, ela foi minha professora de Português, Geografia e Historia. E minha implacável tutora. O destino de Tio Inacio é que aparentemente não se complicou. Não sei como reagiu de imediato à escolha de Tia Maria. O resultado é que se casou com Tia Das Dores, irmã da futura freira. Estava escrito que seus filhos seriam nossos primos irmãos. Na foto aí Tia das Dores aparece, por impericia ou limitações de equipamento da fotografa ( acho que mais por impericia), na janela como uma sombra. Embora fosse, como em toda a familia, a figura forte da parelha, era assim que se deixava confundir: com uma sombra. Na maturidade, Tio Inacio não se preocupava em lembrar de nada. Tinha a memoria acessória de Tia Das Dores. No meio de uma historia, gritava: " Dasdores!!!! Em que ano nasceu Carmem Yolanda ( a unica filha fêmea do casal)?????" Ou convocava: " Dasdooooooores! Como era o nome do filho de compadre Fulano de Tal? ". A Tia prontamente aparecia com a resposta na ponta da lingua.
Tia das Dores já se foi. Tia Maria está indo aos poucos, com muita leveza. Morri de vontade de perguntar-lhe sobre o "noivado" mas não tive coragem. E nunca perguntei à herdeira de noivo. Sei que as duas sempre se deram bem. Tia Maria sempre trazia presentes do convento pra boa parte da familia inclusive para a que quase foi a familia dela. Essas substituições no segundo tempo não eram incomuns àquela época. Sei de muitos casos de irmãs que assumiam marido e filhos das que morriam . Principalmente por problemas no parto.
Tia Maria está numa cadeira de rodas, caladinha e aparentemente muito distante. Neste dia que passei com ela fiquei a lhe contar historias da familia, lembrar o nome dos irmãos e sobrinhos e dizer-lhe segredinhos que nunca tive oportunidade. De vez em quando seu olhar deslisava de lá das longitudes e se encontrava com o meu como se tivesse "chegado". Como se a lembrança a tivesse fisgado. Outras vezes deixava escapar um sorriso tímido e cumplice.
Em algum momento lhe perguntei se lembrava quem , na familia, tinha o apelido de Mê-a-má. Ela me olhou dauqele jeito quase infantil, quase malicioso e falou suave: " era eu!!!". Naquele momento, as duas Marias, a freira e a outra, se encontraram numa. Foi mágico. E suficiente.
Em algum momento lhe perguntei se lembrava quem , na familia, tinha o apelido de Mê-a-má. Ela me olhou dauqele jeito quase infantil, quase malicioso e falou suave: " era eu!!!". Naquele momento, as duas Marias, a freira e a outra, se encontraram numa. Foi mágico. E suficiente.
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